domingo, 20 de junho de 2010

A descoberta do caminho afectuoso para a Índia

Conheci, há uns anos, em Malta o senhor Ropu. O início da conversa nem começou da melhor forma. Quando lhe perguntei de que país vinha, ele pediu-me para adivinhar. Como ninguém consegue saber ao certo o local de residência de cada um, pensei que ele me convidava a ler os seus traços étnicos, fazendo deles um fio que me conduzisse à sua origem.

Era evidente que se tratava de um indiano com os seus sessenta anos. Não havia dúvidas quanto a isso. O que eu não percebia era porque razão um indiano tinha decidido fazer turismo em Malta. Disse-lhe então as minhas certezas e as minhas dúvidas. O senhor Ropu ficou muito admirado. Nunca ninguém tinha conseguido perceber as suas origens indianas. Geralmente pensavam que ele era italiano. Eu respondi-lhe que para mim era óbvia a associação. Sendo eu de Portugal, de Lisboa, ainda para mais, convivendo lado a lado com tantos indianos, não me poderia enganar.

O senhor Ropu deu um passo atrás, ficou estupefacto, e desabafou para a senhora que o acompanhava: "Olha, são do país que destruiu o Oriente!".

Raramente terei tido um início de conversa tão constrangedor com alguém.

Mas, apesar de tudo, continuámos a falar nesse e nos outros dias que se seguiram. Soube que tinha nascido em Calcutá e que desde há alguns anos residia no Dubai. Falávamos nas diferenças entre o Oriente e o Ocidente. Partíamos de generalizações, comprovadas ou não nas radiografias rápidas que íamos tirando nas nossas conversas.

Certa vez, perguntou-me como era possível os europeus acreditarem num só deus. Nunca ninguém me tinha feito uma pergunta semelhante. Talvez por não estar à espera, soube imediatamente a origem da sua dúvida. Expliquei-lhe que os ingleses, tão bem conhecidos dos indianos, é que acreditavam num só deus. Os países do sul da europa era como se acreditassem em muitos. As nossas igrejas estão cheias de santos aos quais as pessoas oram. Oram a S. António, a Maria, a Santa Rita de Cássia, a S. Bento. Têm uma relação mais próxima com S. Francisco de Assis do que com Deus. Chegam perto das suas imagens e falam com eles. Falam-lhes dos seus problemas, confessam-lhes as suas alegrias. Deus não pode estar presente para todas essas coisas pequenas que formam o nosso dia a dia. Nesse momento, o senhor Ropu parou. Ficou com o olhar fixo em coisa nenhuma e exclamou: "Agora, percebo perfeitamente".

O que o senhor Ropu tinha percebido, no mesmo instante do que eu, era que nós, sul europeus e indianos tínhamos qualquer coisa, afinal, de profundamente semelhante. Tínhamos compreendido que dois sistemas religiosos tão afastados pelas catalogações eram, no fundo, tão próximos, independentemente da forma dos templos, das vestes dos crentes, dos odores particulares, das formas mais arrojadas ou sensaboronas dos deuses ou santos. Tínhamos compreendido que éramos humanos, de uma forma como nunca o tínhamos feito. Éramos da mesma espécie e, apesar de o sabermos racionalmente, nunca o tínhamos sentido.

Quando nos despedimos, o senhor Ropu confessou-me já ter ido, havia bastante tempo, a Goa. Falou-me que ele, indiano de Calcutá, sempre ficara confuso com algumas das atitudes dos goeses. Mantinham os nomes portugueses, guardavam os passaportes lusos com orgulho e muitos deles recusavam até a nacionalidade indiana depois da reintegração na Índia. Sentiam-se portugueses especiais e assim queriam permanecer. Nós sempre detestámos os ingleses, dizia. Era o invasor que tinha de ser expulso a todo o custo. Como era possível que aqueles indianos em particular tivessem aquele tipo de atitudes de afecto por conquistadores europeus? Sempre ficara com esta dúvida de resposta absolutamente inexplicável.

Agora, ao fim de tantos anos, consigo compreender o porquê, disse-me.


Alexandra Pinto Rebelo

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